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Mosquetões - escolhendo o mais adequado
#1: considerando as opções de formato

Oval - o oval é o formato original, isto é, foi o primeiro a surgir. Normalmente, são mais baratos que os seus "primos ricos", porém são ligeiramente mais pesados e também apresentam uma resistência reduzida ao longo do eixo maior.

Entender essa redução de resistência apesar do diâmetro da barra de alumínio ser sempre o maior é fácil - o culpado é o gatilho! O gatilho é a parte mais frágil do "sistema" mosquetão e o formato do mosquetão oval divide a carga por igual entre as duas laterais paralelas ao eixo maior. São, por isso, chamados de mosquetões centralizadores.

Vale ainda acrescentar que há dois tipos de oval, o simétrico e o assimétrico. O primeiro é o clássico por excelência e o que apresenta a menor resistência; o segundo, mais moderno tem a resistência aumentada usando um ardil simples: concentrar a maior parte da carga próximo da "espinha" do mosquetão, ou seja, a lateral que não tem o gatilho.

Os ovais têm uma outra característica importantíssima, que é a capacidade de posicionar a corda ou fita tracionada bem no centro da sua curvatura. Isso é muito desejável em ancoragens, sistemas de resgate e subida/descida, como veremos a seguir.

Os ovais prestam-se a uma infinidade de usos em praticamente todos os desdobramentos dos esportes de montanha. Em escalada em rocha, pode ser usado para clipar o equipamento de subida (jumar, punho) ou de emergência: prussik ou Machard; em Big Wall, usa-se muito com o equipamento de escalada móvel; em escalada artificial, é usado nas solteiras e estribos.

Indo para o lado da espeleologia, encontram uso nas ancoragens (afastando o nó da parede e diminuindo assim a abrasão da corda), nos equipamentos de descida e subida, além de ser largamente utilizado um mosquetão oval de aço como freio extra de descida.

Há ainda importantes aplicações de resgate e auto-resgate, onde o uso combinado com polias e blocantes gera eficientes sistemas de içamento/descida.


"D simétrico" - o segundo na linha de evolução dos mosquetões, o formato D simétrico surgiu como um solução engenheirada para aumentar a resistência das peças sem aumentar seu tamanho e, conseqüentemente, seu peso. A idéia por trás desse projeto é deslocar as cargas de tração diretamente para a "espinha" do mosquetão (sua parte mais resistente), o mais longe possível do gatilho.

Os mosquetões desse tipo são largamente utilizados em atividades onde a preocupação com a resistência é uma constante, como o balonismo, usando-os para unir o envelope ao cesto ou mesmo em espeleologia, onde pode ser usado para prender o descensor à malha rápida da cadeirinha. Têm um largo número de adeptos entre os especialistas em atividades de resgate. Também são usados em conjunto com nuts e friends e para o lado da costura que se prende na ancoragem.

Por outro lado, há alguns poréns que o usuário deve ter em mente quando opta por esse formato para o montanhismo - o formato acaba encalacrando a fita no vértice, distribuindo assim a força de impacto de maneira inadequada, diminuindo a resistência da fita. Em ancoragens artificiais, com spit e chapeleta, o mosquetão coloca a corda muito próxima a parede, aumentando a abrasão e o risco.

Claramente, não são tão populares em montanhismo quanto já foram no passado, mas ainda têm os seus méritos e seus defensores ferrenhos.


"D assimétrico" - aqui se aplicam os mesmos princípios dos "Ds simétricos", principalmente no tocante à resistência e estrutura. Porém, são significativamente menores em uma das extremidades para reduzir ainda mais o peso, sem perder o compromisso com a resistência.

Outra interessante característica, introduzida pela alteração no formato tradicional, é uma abertura maior de gatilho, tornando-os mais fáceis de clipar tanto na ancoragem quanto na corda. É, de longe, o formato de mosquetão de costura mais largamente utilizado e, para alguns, é o que vem à mente quando se fala em mosquetão.

Deve-se atentar, porém, para o fato que a redução de uma das extremidades limitou a "capacidade de volume da peça, isso é, ele não tem tanto espaço interno quanto um oval ou um "D simétrico".

Pêra - esse formato é também chamado de HMS, que em alemão significa "HalbMastwurfSicherung" - segundo conhecedores da língua, isso basicamente quer dizer "nó dinâmico" ou o nosso bom e velho UIAA.

Bom, então como o nome já diz, um dos usos primários desses mosquetões é com o nó UIAA, tanto para uma descida em caso de emergência quanto para dar segurança ao companheiro. É fundamental conhecer e treinar o uso deste nó, pois ele pode salvar a sua pele no caso de perda do seu oito, atc ou qualquer outro aparelho de atrito.

Porém, ao se usar esse mosquetão com um UIAA, deve se atentar para que a corda ativa (ou de tração) esteja sempre saindo para o lado contrário ao gatilho (ou seja, o lado da "espinha" do mosquetão) - explicando: como já visto, o gatilho é a parte mais frágil do sistema.

Outra característica fantástica desse formato é que ele permite uma ancoragem com características multidirecionais e não apenas bi-dimensional, como acontece com os "D"s ou o bom e velho oval.

#2: considerando as opções de gatilho

Antes de mais nada, é bom lembrar que o gatilho é uma peça (também chamada de "portão") composta de uma mola que permite uma fácil abertura quando empurrado e um fechamento automático quando liberado.

Ele pode ser tanto do tipo convencional, ou seja, composto do corpo do gatilho, da mola (normalmente aço inox), da lingueta (também de aço inox) e do rebite - ou o chamado "gatilho de arame", fabricado em um arame de aço inox de grosso diâmetro. Nesse tipo, o que mais chama a atenção é o fato do gatilho ser composto por uma única peça.

Classicamente, classificam-se nos seguintes tipos:

reto - os gatilhos retos são os mais comuns e aqueles que serão encontrados em todos os mosquetões ovais, pêras, "D"s simétricos e também nos mosquetões com trava. A sua característica distintiva (e óbvia) é que são perfeitamente retos desde uma ponta até a outra.

Esse tipo de gatilho encontra múltiplos usos, dentre os quais destacam-se o uso em costuras (sempre preso ao grampo ou chapeleta), em auto-seguros (ou solteiras) de espeleo e canyoning, em escalada artificial e sempre que se precisa pendurar algum equipamento.

curvo - os gatilhos desse tipo têm um design côncavos, que facilita muito clipá-los à corda, tanto pelo formato em si quanto pela maior abertura proporcionada.

É importante saber que o desenho curvo do gatilho não afeta de maneira significativa a resistência ou o peso da peça.

Mais importante ainda é saber que se ele for costurado de maneira inadequada, a corda pode se soltar e agravar em muito a queda. Portanto, como qualquer outro tipo de equipamento de montanhismo, deve-se dedicar o tempo e a paciência necessários aprender a utilizá-lo corretamente.

ATENÇÃO: os mosquetões de gatilho curvo (ou, carinhosamente, mosquetões curvos) sempre devem ser utilizados em conjunto com uma fita expressa ou um anel e só devem ser clipados na corda. Nunca clipe um deles diretamente na ancoragem - quando sujeitos a uma carga dinâmica (por exemplo, a queda de um guia), há uma chance aumentada de que se soltem e agravem a queda.

gatilho-de-arame - são também chamados de "wire" e utilizam um loop de aço inox como gatilho. Esse loop atua também como uma mola e isso reduz o peso do mosquetão e elimina a necessidade de peças extras para retornar o gatilho à posição "fechado".

Embora ainda sejam olhados com uma certa desconfiança por uma boa parcela dos escaladores brasileiros (e do resto do mundo também), esse tipo de design merece créditos, pois apresentam várias soluções excelentes:
menor peso
risco reduzido da mola "travar"
menos peças e, portanto, menos pontos prováveis de falha
resistência igual ou maior do que os mosquetões com gatilho convencional
risco reduzido do mosquetão se abrir durante a queda, pois a massa do gatilho é menor e, portanto, esse vibra menos

Mas não deve-se esquecer que apesar de serem peças excelentes, quando tracionados transversalmente, começam a se deformar antes, apesar de terem uma resistência transversal (eixo menor) aumentada.

Pois bem, na próxima vez que estiver passeando pela sua loja favorita ou escalando com alguém que tenha uma costura desse tipo, olhe-a melhor e dê uma chance para que ela possa tornar sua escalada ainda mais segura

trava - mosquetões com trava, como diz o nome, podem travar o gatilho de forma que ele permaneça fechado mesmo quando pressionado para abrir. Assim, fica criada uma melhor proteção contra a abertura acidental.

Os formatos dos mosquetões com trava são os mais variados possíveis, sendo os mais comuns ovais, "D"s, "D"s assimétricos ou pêras. Já os tipos de trava variam desde roscas simples até mecanismos automáticos, acionados por uma mola, com uma ou duas travas, etc.

Seu uso é exigido toda vez que se depende de um único mosquetão para segurança, como durante o rappel, na ancoragem, na primeira costura da via ou quando há uma distância muito grande entre uma costura e a seguinte. Há aqueles que os preferem também na solteira, no equipamento de subida e em uma enormidade de outras situações.

Não são recomendáveis para uso diretamente para escalada em gelo, pois o risco de congelarem é bastante grande. Para esse tipo de uso, é necessária a lubrificação com óleos especiais tanto na rosca quanto na mola.


#3: acabamento

Há dois tipos de acabamento para mosquetões de alumínio - anodizado e polido.

O acabamento polido é o mais barato e é o encontrado nos mosquetões mais econômicos de cada linha. A peça é polida ao brilho após a forja e o alumínio reage com o oxigênio do ar, formando uma fina camada de óxido de alumínio, que lhe dará a proteção final. Embora barato e uma excelente opção para quem precisa de muitas peças a um custo razoável, o acabamento polido não é adequado para regiões salinas.

Já na anodização, um processo onde o coating (a cobertura) é uma parte do próprio metal e não uma camada a parte (como tinta), a superfície do alumínio é endurecida e fortalecida a um grau não atingido por nenhum outro processo. São agregados pigmentos coloridos ap acabamento anodizado para fins estéticos e de função.

Agrande vantagem dos anodizados é a durabilidade, pois o mosquetão fica mais protegido da corrosão e da abrasão.


#4: Finalizando...

Uma vez considerados formato do mosquetão e do gatilho, há alguns outros fatores que devem ser levados em conta:


peso - pessoas normais preferem ter que carregar o mínimo de peso possível, seja durante a ascensão ou mesmo na trilha para se chegar ao lugar desejado.

Tenha em mente, portanto, as diferenças entre o aço e o alumínio nesses casos e procure utilizar o mais adequado a cada situação - nem sempre se precisa de um mosquetão de aço para 50kN e nem sempre um mosquetão de 22kN é o mais adequado. Saber avaliar o que, quando e onde é fruto de treinamento, experiência e muitas horas de conversas com pessoas mais experientes.

Mais ainda, há uma crescente tendência a se utilizar mosquetões de menor peso e tamanho. É muito importante salientar que mosquetões mais leves são fabricados, normalmente, com um diâmetro menor e têm, assim, menor vida útil, menor resistência com o gatilho aberto e costumam causar um maior desgaste da corda - os espaços menores e mais estreitos podem "morder" a corda.

tamanho - assim como peso, deve se ter em mente as diferenças entre mosquetões grandes e pequenos, pois encontrar a ferramenta mais adequada ao uso vai diminuir muito as dores de cabeça durante a atividade.

Os mosquetões menores são mais leves e ocupam menos espaço no rack, parecendo portanto ser a opção óbvia. Porém, por serem menores são mais difíceis de se clipar, têm um menor espaço interno e não são tão fáceis de se manusear quanto os mosquetões maiores. Portanto, lembre-se sempre: ferramenta correta para a tarefa também é fator de segurança.

resistência - como já vimos, o mosquetão é projetado para suportar cargas ao longo da sua "espinha", com o gatilho fechado. Todos os mosquetões certificados CE e/ou UIAA agüentam as cargas desenvolvidas durante a prática normal do montanhismo. Porém, podem se romper se forem tracionados de maneira incorreta - por exemplo, ao longo do eixo menor ou com o gatilho aberto.

Depois de se ter tido uma noção geral do que existe e para que serve cada tipo, dê um pulo na sua loja predileta e gaste algumas horas do seu tempo por lá. Olhe bem a seleção de mosquetões disponíveis procurando imaginar se ele é adequado para as situações que você costuma enfrentar e não hesite em consultar o lojista - em lojas boas, ele costuma ser um montanhista experiente e, assim como nós, apaixonado por equipamento.

Lembre-se, para finalizar, que nada, nenhuma palavra escrita, substitui um treinamento sólido e o embasamento que a experiência vai lhe trazer - leia muito, aprenda muito, pois o montanhismo é um eterno aprendizado, mas saia da sua cadeira e vá lá pra fora, pois é treinando e fazendo que se solidifica o que se lê e se ouve.

Danilo Allegrini

*esse texto pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte e o autor.